quarta-feira, 23 de março de 2016

Retrato do poeta




(In memoriam ao poeta Roberto Romanelle Maia  )
Não o encontro neste retrato.
Em seu semblante,tem um sorriso
que não é seu...
Seu olhar é vivo,apaixonado pela vida
  ás vezes com uma luz tão intensa, que
parece insano...
Tem um quê de impaciência como
se tudo tivesse que ser imediato até
no amor;mesmo que não seja sensato.
Em sua irreverência nem sempre 
é compreendido e  á vezes... odiado.
Sua imagem tem olhos ansiosos,cabelos
despenteados,nervos à flor da pele.
É irônico,acido,mas sabe ser doce e suave
como um vinho de paladar macio e aveludado.
É um dínamo que impulsiona,deslocando
a paixão,transitando pelas múltiplas
áreas dos sentidos.
Retrata a solidão ecoando poemas, com
a força inesgotável do amor.
Divaga fascinado, saboreando as eternas
nuances do sagrado ao profano...
Gladiador sem armas,luta com as palavras
na esperança que seus sonhos sejam realidade,
ao alcançar o oculto,quando sua alma imortal
ganhará a liberdade e seus poemas... 
A eternidade.


(...............)


                   Marcia Portella

Imagem_Betina La Plante


segunda-feira, 21 de março de 2016

Retornei




Não falo de mim
ou de saudade...
Minhas palavras ,
adormeceram no tempo
onde tudo é remoto,
e nada coincide.
Nunca fiz perguntas,
nem respondi.
Apaziguei ventos.
Segurei tempestades.
Carreguei o peso dos anos,
retida entre paredes invioláveis
onde tudo era secreto...
O que sei de mim...esqueci.
Tudo é branco,frio e plácido
como o inverno.
Sem desenganos questionar,
porque calei,onde estive,
se desatinos cometi...
Não sei!
Mansamente em mim retornei
                                   


                                                   Marcia Portela


Imagem_Web


domingo, 13 de março de 2016

Entre brumas




Entre brumas te vi passar
pálido,como seus cabelos
cheirando a mar...
Seus olhos marejados
diziam que, ainda que
seu corpo estivesse ali,
nesse momento seu espírito
naufragava,em plena tempestade,
 num mar escuro e gélido...
O áspero quebrar das ondas
e o contínuo murmúrio
cavernoso do mar gritava alto
sua emoção, tão muda,quanto
cicatrizes em um alma,que partiu
inteira e voltou faltando pedaços...
Ao sentir que partia,meus lábios
tremeram,frágeis, como uma rosa
à beira do colapso...
Meus olhos derramaram mar.





                                                Marcia Portella

Tela_Casper David Fredrich

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ás vezes





Às vezes
Tenho vontade
de estar com você.
Tenho outras
de lhe esquecer.
Vontade 
De ser fiandeira 
do seu destino.
Fuso
Que lhe faz linha.
Novelo
em que se enrola.
Tesoura que corta.
Vontade 
de ser sua casa
Outras
De trancar a porta
                   despedindo nós dois


                                    Marcia Portella

FotoLittle Boat

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Lembrando com saudade




Saudade do que poderia 
ter sido,mas não foi..
Saudade do riso calado
Do cinismo em poemas
salpicados de amor irônico.
Da música que não dançamos
No toque que não aconteceu, 
na distância velada do existir....
Da espera na ilusão de fingir que
 era só um acaso a ponto de ficarmos
saturados,respirando lentamente
Em prazer doloroso,
Enxugando lágrimas
Penteando cabelos
Arrastando palavras
como cobras loucas
no breu quente 
da noite que grita...
Saudade!


                                    Marcia Portella



Foto_Lora Palmer

sábado, 30 de janeiro de 2016

Adormeço



Peço que me ouça...
Minha alma adormece no seu amor
e desperta com suas carícias.
Não espero que lágrimas de silêncio
tragam a fascinação da promessa...
No seu calar,concorda com minha
loucura que se faz em grandes asas
sobrevoando o deserto...
Na madrugada,rastejo qual serpente
emplumada entre ondas de areia e brisa
que brincam,escondendo minha alma do
  vento que vem em fúria implacável
chamando,atraindo-me,querendo afogar-me
 em ondas desdobradas de paixão...
À noite nasce no crepúsculo da ilha de
minha alma gemendo em ecos perdidos.
Sinto o rosto iluminar-se como o dos santos condenados com sua auréola dourada.
Estou só...


                                   Marcia Portella


  Imagem_Francine Van Hove        




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Queda livre



No voo do pensamento, lancei-me
 em queda livre.
Fui surpreendida enquanto passavas
como o vento.
 Em teus olhos, senti que cintilava
 algo ansioso.
Nas sombras tentei capturar 
tua alma, descuidada na armadilha
do tempo me perdi...
Tua luz feito ouro líquido espalhou-se
em meu caminho,entrando devagar
 como feitiço em minha pele,roubando
minha alma,sem que percebesse...
Só de me sentir enlaçada no invisível que
  nos unia,fazer parte de tua ilha;fui feliz.
Desatenta, diluindo-me aos poucos qual
lágrimas de vapor, senti teus passos
perderem-se no vazio...
Tua expressão fria tornou-se aguda,
parecia congelar tudo ao meu redor.
Com um último olhar, tentei te atrair
como mariposa na luz fugaz mas,
fugiste deslizando entre lágrimas.
Teu vulto na senda dos sonhos escorria
entre meus dedos como se fosse líquido,
senti neste momento... que te perdia...
Fui fogo-fátuo em explosão de tormentos
e sob a forma de luz difusa...
            Submergi de tanto amar


                                              Marcia Portella
_black_and_white_photos